Os efeitos do coronavírus no desenvolvimento do agronegócio

Essa reunião foi realizada por videoconferência, numa situação com contornos evidentes de ser a maior crise vivida pelo mundo na sua história recente. Com liderança e gestão competentes, conseguiremos assegurar aos brasileiros o abastecimento adequado de alimentos e energia. Poderemos garantir isso aos cidadãos espalhados entre os milhares de municípios nesse imenso território, as pinceladas necessárias de segurança e tranquilidade nesse triste quadro repleto de receios e tantas incertezas.

Todas as instituições que têm conselheiros no Cosag fizeram questão de manifestar de forma positiva a realização desse encontro. Recebemos mensagens elogiosas e gratificantes. A composição do Cosag é feita de cidadãos comprometidos com a tarefa de gerar abastecimento e desenvolvimento para o nosso Brasil.

Sobre o tema em pauta nesse encontro, realizado em 6 de abril último, na sede da Fiesp, apresentamos, a seguir, duas apresentações e os comentários finais.

Vivemos um momento com necessidade de estar unidos, com diálogo e entendimento. Teremos de superar uma situação difícil não só para o Brasil, mas para o mundo. O grande oportunidade aberta no agronegócio. Como se sabe, nas crises, achamos as soluções.

Contamos com cabeças e pensadores da melhor qualidade nesse Cosag. Formulamos e tomamos medidas emergenciais. Agora, agiremos de maneira pontual para manter em continuidade o abastecimento. Entramos numa fase um pouco diferente, com enfretamento de stress social.

Com muito cuidado e profissionalismo, a maioria da agroindústria brasileira saberá conduzir os protocolos, tendo o devido zelo nos relacionamentos com pessoas e funcionários, sem deixar de cumprir essa missão importante de abastecer a população. Devemos louvar e agradecer os vezes sem as condições adequadas para trabalhar.

Queremos agradecer a todos os colaboradores por manter, sem parar, esses dois serviços essenciais de produzir e distribuir alimentos para a população. O MAPA está disponível e aberto para receber sugestões. Não somos donos da verdade. Ninguém sabe mais do que ninguém. Muitas providências poderiam estar paradas se não fosse a colaboração frequente dos participantes desse evento.

Quando, em janeiro, começamos a tomar conhecimento do tamanho do problema enfrentado pela China, sabíamos da sua inevitável chegada ao Brasil, cedo ou tarde. Acompanhamos a Itália, a Espanha, a Alemanha e outros países na Europa. Foram incluídos os Estados Unidos (EUA) e as demais nações do mundo. De imediato, no MAPA, montamos um grupo para acompanhar os problemas que viriam para cá.

A partir daí, tomamos algumas ações rápidas para o abastecimento não sofrer interrupção. Divulgamos a Medida Provisória (MP) dos serviços essenciais. Começamos a assistir a várias iniciativas de governos estaduais e municipais

Com o estado de decreto de calamidade pública do presidente, as coisas amainaram-se, e começamos a receber respostas positivas. Tivemos de atuar de forma pontual em alguns municípios onde as prefeituras não compreendiam os acontecimentos e seus impactos sobre a sociedade.

QUEDA NA DEMANDA INTERNA DE ETANOL

2Defrontamo-nos com o problema da queda na demanda interna de etanol devido ao isolamento da população por Saudita e a Rússia e da consequente derrubada nos preços do petróleo. O assunto está sendo tratado com prioridade no Comitê de Crise, com a participação de vários ministros. Há um entendimento muito amplo sobre a importância do setor sucroenergético brasileiro, não só para o emprego, mas na sua estratégia de globalização.

Em breve, teremos a decisão de como o Governo começo de colheita de cana. Essa planta, diferente- precisa ser processada em até 48 horas para produzir açúcar e etanol. O remédio deverá chegar a tempo de curar, e não depois da morte do paciente. Essa é a briga agora, no bom sentido. Se não for boa, troquemos a decisão.

No Ministério Público do Trabalho (MPT), enconde 1,80 metro. Em minoria, existem regras difíceis de serem cumpridas. Essa é uma delas. Como afeta o abastecimento do mercado interno e das exportações, devemos debatê-la. Na soja e no milho, o problema difere, pois a alta do dólar favorece o embarque das commodities, mas, em contrapartida, encarece os insumos. Então, analisamos cada cadeia produtiva para atuar de maneira correta.

Não temos dúvida de que sofremos prejuízos em algumas áreas, mas a agropecuária não está sendo tão afetada quanto o comércio, o turismo e os eventos. Enfrentamos perdas com com necessidade de apoio. O mercado de food service, da alimentação fora do lar, segue em operação, mas aquém da demanda anterior. Conversamos diariamente para que as associações de classe e as cooperativas nos passem informações.

Trabalhamos para postergar as dívidas dos agricultores e antecipar o lançamento do Plano Safra 2020/2021. Uma retirada

de recursos do crédito rural agora impactará mais para frente. Pensamos nisso ao arquitetar as estratégias pós-coronavírus. Há muita reclamação quanto à falta de liquidez e à necessidade de capital de giro diante do fato de que a desvalorização do dólar estimulou a venda antecipada de produtos.

PRECISAMOS DAS CONTRIBUIÇÕES DO COSAG

As medidas feitas pelo Banco Central surtiram pouco efeito. Há receio da parte dos bancos em tomar risco. Como os empréstimos são ofertados para os detentores de capitais, não está crescendo a fatia para as médias empresas. No nosso radar, conversamos sobre esse assunto, em especial em relação à área das agroindústrias.

as ações de ir e vir das cargas. Na parte internacional, não paramos nem 1 minuto. Acabamos de receber boas notícias quanto à abertura de novos mercados no Egito, no Marrocos e em Singapura, entre outros. A balança comercial segue positiva com a China, apesar de ter piorado com alguns outros países.

Tomamos várias ações para diminuir a burocracia. Um dos grandes legados pós-coronavírus será a quebra de superposição de regras. Teremos um ganho com as medidas agora tomadas. Gostaríamos de receber feedback para olharmos e examinarmos sem a precarização do ambiente de negócios, principalmente as normas excessivas e superlativas, sem retroceder após essa fase difícil.

Estudamos vários cenários sobre o futuro do mundo pós- coronavírus. Como diz Roberto Rodrigues, a agricultura traz paz ao abastecer. Imaginemos se não tivéssemos produção e abastecer. O primeiro setor a dispor o álcool em gel que falta foi o sucroalcooleiro. Fomos à Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) para quebrar a distribuição do álcool 70% para a área da saúde e, também, fazer o álcool em gel em quantidade.

Quando mostra a capacidade de produzir e abastecer a população, a agricultura tranquiliza o País. Essa lição tem sido cumprida nos últimos tempos com maestria. Conseguimos os contratos de comércio com as nações parceiras.

Ficamos com a seguinte pergunta: como o País pode melhorar mais a produção e continuar como um grande supridor de cabe ao plantio do que podemos produzir mais ou menos na próxima safra 2020/21.

Pedimos a contribuição das lideranças presentes no Cosag para nos ajudar a pensar e escrever um plano pós-guerra contra esse vírus invisível que levará a economia mundial a problemas muito sérios. Trata-se de como poderemos nos ajudar, no emprego e no abastecimento, aqui dentro, mas também o mundo com necessidade de alimentos lá fora.

Traçaremos uma visão sobre a conjuntura internacional para chegar aos acontecimentos depois do coronavírus. Daremos uma olhada nas lições aprendidas do passado, a partir de duas grandes crises bastante relacionadas com a atual.

A primeira dessas crises deu-se na Grande Depressão nos EUA, entre 1929 e 1933, com parada geral e queda na oferta e na demanda dos mercados. Tivemos a famosa Black Thursday, em 24 outubro de 1929, com a quebra da Bolsa de Nova York. Em 1930, a chamada Smoot-Hawley Tariff provocou um aumento unilateral das tarifas de importação. Já a expansão agrícola com a mecanização da agricultura, na década de 1920, gerou um excesso de produção, uma queda de preços e renda e falência de produtores. No mundo, isso causou uma queda do Produto Interno Bruto (PIB) e do comércio mundial, com corte do crédito. Vieram as chamadas políticas intervencionistas, com os programas para reativar a economia, do tipo New Deal. Enquanto isso, a extrema direita assumia o poder na Europa.

A segunda deu-se em 2007-2008 e 2010-2011, com o aumento dos preços do petróleo e das commodities e pressão de demanda em países pobres devido a estoques baixos, resultando em quebra de safras e alta dos preços agrícolas. Esse ambiente trouxe revoltas, tumultos e racionamentos nos países em desenvolvimento. Em 2011, o descontentamento social em países importadores gerou a Primavera Árabe e afetou as populações pobres em países ricos.

Ao imporem restrições às exportações para formar estoques que garantissem o abastecimento, os países em desenvolvimento reduzem a oferta global. Essa crise demonstrou o risco do protecionismo para a segurança alimentar global.

GANHADORES E PERDEDORES

Nos impactos gerais sobre o agronegócio, temos o fato de a alimentação ser menos vulnerável ao lockdown por ser um setor “essencial”. Com duplo choque, a crise afeta tanto a oferta de produtos agropecuários, como a sua demanda. Apesar de ajudar os exportadores, a desvalorização cambial traz graves problemas de crédito e liquidez. No curto prazo, isso causa uma redistribuição de renda, gerando ganhadores e perdedores.

Com relação aos mercados, a demanda pode ter um efeito limitado no consumo total, mas, nos alimentos básicos, pode ser inelástica para preços e elástica para renda em países mais pobres. Os padrões de consumo também podem mudar em função de: (i) restrições localizadas e preços relativos; e (ii) substituição de produtos de maior valor agregado por básicos.

Do lado da oferta, ao contrário do que houve na crise de 2007-2008, os estoques mundiais estão altos neste momento, enquanto algumas atividades agrícolas intensivas em mão de obra podem ser afetadas devido às restrições a aglomerações e migrações.

Do lado dos ganhadores, aparecem os produtos (grãos, oleaginosas, carnes, suco de laranja, café, lácteos, alimen- tos ready to cook e ready to eat) e os canais de distribuição (mercados, supermercados, açougues, padarias, delivery e comércio digital). Entre os perdedores, há aqueles nos canais de distribuição (bares, restaurantes, fast food, hotéis e serviços de alimentação).

INSEGURANÇA ALIMENTAR NO MUNDO EM DESENVOLVIMENTO

A crise distribui a renda de forma cruel. Pela demanda, não deve haver grandes mudanças, pelo menos a curto prazo. Alguns produtos sofrem mais do que os produtos básicos, mesmo tendo maior valor agregado. Na parte da oferta, estamos melhores do que em 2007-2008, com os estoques mundiais mais altos.

Essa pandemia chegou primeiro à China, à Europa e aos EUA restante da Ásia. Precisamos estar atentos quando o surto estiver nos países em desenvolvimento. No momento, 90% das crianças matriculadas no mundo (933 milhões) estão com aulas suspensas, com grande potencial de elas estarem sem merenda escolar (acima de 200 milhões). Nessa situação, cresce o risco de a pandemia passar de uma crise de saúde para uma de segurança alimentar.

Diante desse quadro de recessão econômica, rupturas nas cadeias de suprimento e restrições ao comércio internacional poderão causar desabastecimento, volatilidade de preços, pânico e instabilidade social. Crescerá a vulnerabilidade nos países em desenvolvimento africanos e asiáticos. As pandemias anteriores (SARS, MERS e gripe aviária) geraram nas cadeias de suprimento transfronteiriças, com imensas lockdown. E tudo isso terá um forte impacto sobre pequenos e médios agricultores.

RESTRIÇÕES AO COMÉRCIO INTERNACIONAL

Assistimos ao renascimento da geopolítica com o acordo dos EUA e da China de comércio administrado, o plebiscito Brexit no Reino Unido e o fechamento das fronteiras na União Europeia, além dos movimentos antiglobalistas e antimigração.

Nessa tendência, há de se preocupar com o retorno do Estado-Nação, o controle rígido de fronteiras e o favorecimento da produção e dos produtores locais. Essas medidas são similares à crise de 2007-2008, num contexto de recessão da envergadura da de 1929, com restrições à exportação, controles de preços e formação de estoques domésticos (trigo, arroz e leguminosas) em países exportadores (Rússia,

Cazaquistão, Ucrânia, Índia, Vietnã e Sérvia). Medidas domésticas de controle de preços, aumento de estoques públicos e racionamentos poderão ser adotadas (em países como China, Turquia, Egito e Argélia).

Por conta dessa situação, a Organização Mundial do Comércio (OMC), a Organização Mundial da Saúde (OMS) e a Organização das Nações Unidas para a Alimentação e Agricultura (FAO, na sigla em inglês) lançaram um comunicado conjunto com o alerta de risco de obstrução das de comércio agrícola para evitar crises de fornecimento.

MITIGAÇÃO DA CRISE GLOBAL DA SEGURANÇA ALIMENTAR

  • Monitoramento de mercados e preços;
  • Informação e conscientização da população;
  • Manutenção dos mercados abertos para transações internacionais, evitando a interrupção das cadeias de vital de segurança de supply chains de produtos agrope- cuários e alimentos;
  • de US$ 23,5 bilhões, perto dos US$ 26 bilhões que foram concedidos como compensação pela guerra comercial entre o país e a China;
  • Nutrição infantil: garantia da merenda escolar;
  • Produtos perecíveis: “canal verde” para hortifrútis, lácteos, carnes etc.

Teremos de fazer um esforço pela nutrição infantil no mundo, com a garantia da merenda escolar para crianças. Devemos cuidar de produtos perecíveis extremamente afetados pela obstrução das cadeias produtivas, com a criação de uma espécie de canal verde, como fez a China.

O Christian Lohbauer, presidente da CropLive Brasil, faz uma analogia interessante sobre a importância do coronavírus em reorganizar as sanidades humana e animal, na evolução recente da humanidade, a partir de três fatos que mudaram o com a queda do muro de Berlim, em 1989. O segundo veio com a globalização, a reemergência da Ásia e a reorganização religiosos, com os riscos do terrorismo.

Daqui para frente, haverá grande importância nos temas ligados aos alimentos. Primeiro, não podemos deixar de cumprir o papel histórico no abastecimento global com segurança quantitativa de produtos (food security). Segundo, precisamos fortalecer os sistemas de controle sanitário, com reformas nas legislações sanitárias e proatividade em relação, por exemplo, ao combate às zoonoses originadas em animais selvagens, aos mercados a céu aberto com abate livre de animais e à comercialização de carne exóticas.

COMENTÁRIOS FINAIS

Na verdade, gostaríamos muito mais de ouvir do que falar nesse evento. Mas, cumprimentando a qualidade e a riqueza das apresentações, lembramos a observação oportuna do presidente Jacyr ao manifestar o reconhecimento da classe rural e do agronegócio à ministra Tereza. Agradecemos, de fato, esse seu esforço e estamos permanentemente ao seu lado. Generosa, a senhora responde a todas as questões formuladas. Nunca foge de uma pergunta e sempre dá respostas lúcidas. Isso demonstra um trabalho feito junto a uma equipe maravilhosa.

Temos alguns comentários ligeiros a fazer. Compreendemos o momento dramático vivido pelo MAPA. Consideramos central o funcionamento da engrenagem do agronegócio. Se não fosse essa integração coordenada pelo MAPA, pouca coisa teria sido feita na parte de abastecimento.

Primeiro, listamos o posicionamento recorrente na demanda sobre crédito, com a informação da ministra sobre a aprova- ção da MP do Agro, de muita expectativa no setor. Segundo, destacamos a fala do Marcos Jank com respeito à necessidade de se subir a régua da legislação sanitária diante da fragilidade no mundo inteiro com relação ao coronavírus. A respeito disso, precisaremos, também, avançar muito nessa área de rastreabilidade e certificação.

Como terceiro tema, fica muito evidente a observação sobre a importância e a ajuda de um instrumento vital como o seguro rural. O pessoal de produtos perecíveis, por exemplo, neste momento, passa por uma situação bem complicada. Tendo em vista que há a possibilidade de antecipação do anúncio do Plano Safra 2020/2021, inserimos essa nota especial sobre a relevância de um seguro rural digno para a agropecuária brasileira, como a ministra Tereza Cristina tanto tem trabalhado.

Em quarto lugar, tem-se a situação conjuntural difícil do ponto de vista econômico no setor sucroenergético, em pleno começo da safra 2020/21, com a necessidade do apoio de medidas emergenciais. Em quinto lugar, precisamos tratar dos negócios de comércio internacional. Daqui para frente, esse assunto ganhará espaço. Seguramente, haverá um recrudescimento protecionista, e algumas cadeias globais de valor serão afetadas. Caberá ao Itamaraty concentrar um papel de coordenação e decisão no desenvolvimento dos acordos bilaterais e multi- laterais. A Secretaria de Comércio e Relações Internacionais (SCRI/MAPA) poderá contribuir com pareceres e sugestões.

Em sexto lugar, tem-se as estratégias para agregação de valor, com pontos de integração entre as cadeias produtivas internacionais e as ondas de práticas protecionistas na con- corrência comercial.

Como último e sétimo ponto, devemos citar a burocracia. Nesse aspecto, a ministra pode contar conosco, com as en- tidades de classe integrantes do Cosag. A agricultura possui tempos; não pode esperar. A atividade é desenvolvida pelas para tomar decisões urgentes. Esse aspecto deve ser tratado com muito rigor. Precisamos da compreensão em relação à tempestividade dos processos no setor primário, que se articula diferentemente dos demais.